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Este é um post escrito pelo meu amigo querido João Morandi

Boa parte das pessoas pensam que o bartender serve à indústria do entretenimento.

É bem verdade que boa parte do que fazemos, inclusive se consideramos a mixologia como um ramo da gastronomia, é entreter papilas gustativas e proporcionar boas experiências sensoriais, especialmente de gostos balanceados e sabores complexos e elegantes.Mas em se tratando de experiência, a que mais encanta e a que tem o poder de transformar todas as outras, inclusive as experiências gustativas, é a experiência social.

Por isso, gosto de dizer que servimos, principalmente, à indústria da hospitalidade. Como diria meu amigo Thiago Ceccotti “não existe cocktail ruim se ele tem uma bela história”. E fica bem óbvio para nós, bartenders, após anos de atendimento no balcão que, preparar o cliente para apreciar um cocktail é um processo que leva a palavra libação diretamente ao seu significado mais sublime e místico: derramar uma bebida por puro deleite em ação ritualística. A história que antecede um bom cocktail o torna ainda mais interessante, paramenta o cliente com cultura instantânea, fazendo-o perceber cada soberbo detalhe como se fosse um experiente crítico. É claro que a história sozinha não salva um cocktail, mas a apreciação pré bicada, o pano de fundo, a atmosfera que se oferece às pessoas antes da apreciação de facto dos próximos componentes subsequentes é absolutamente imprescindível. Para que eu não seja acusado de romântico, vai aqui alguma ciência que me ajuda a ser um sonhador cum laude.

No seu livro Craft Cocktails At Home, o especialista Kevin Liu nos explica porque preparar e preparar-se para provar algo é tão interessante (a tradução é minha, mas a verdade é dele). O exemplo dele é com vinho, mas pode ser transbordada para outros tipos de bebidas alcoólicas. Aqui, usamos para o que nos interessa: COCKTAILS!

“Enquanto o vinho está do lado de fora da boca, visão e olfato engatilham o corpo para uma experiência gastronômica. O pâncreas libera hormônios digestivos e glândulas salivares liberam saliva (ele gosta de ser redundantemente enfático. Deixa ele). Saliva é uma mistura salgada de água e proteínas. Isto significa que, prestar atenção a uma bebida pode, de fato, fazer com que ela se torne mais gostosa, porque saliva contém mucinas salivares, proteínas que a tornam mais viscosa e melhoram a textura. A atenção também amplifica a percepção. A escolha consciente de focar em uma bebida engatilham o córtex pré-frontal do cérebro para direcionar o bulbo olfativo e o tálamo para possibilitar maior recepção sensorial em outras regiões do cérebro tal qual a amígdala (área responsável por respostas emocionais) e o hipocampo (área responsável por formar memórias de longo prazo das experiências)”

Genial, não? Vamos entender o que o Kevin Liu disse aqui. Preparar-se para beber algo, assim como para comer, melhora a textura da saliva, o que melhora a textura do que vai ser ingerido. Receber estímulos olfativos e visuais amplifica a percepção e ativa partes do seu cérebro que vão permitir respostas emocionais mais completas e criação de uma bela lembrança de longo prazo desta experiência. Uau! Onde eu assino?

Preciso explicar ainda porque sentar-se no balcão e ter um tête-à-tête com seu bartender preferido podem fazer sua experiência exponencialmente mais rica? O balcão tem histórias, cores, sabores, aromas, interações sociais, tato, textura e mais um milhão de possibilidades para tornar suas experiências em transformadoras.

No balcão, você nunca está sozinho.